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Edições Rolim, Lisboa, 1985. In-8º de 42-(1) págs. Brochado. Lombada com ligeiros picos coçados de manuseamento. Miolo muito fresco, impecável. Capa e grafismo de João Carlos Albernaz.
Exemplar da edição especial, numerada e assinada, levando o nº VIII.
Ostenta no frontspício uma expressiva dedicatória a uma conhecida pintora nacional " Para a perigosíssima (destinatária), não uses a tesoura - só a guilhotina fatal e rápida - sem anestesia! o autor L. Pacheco 21.X.85"
Teodolito havia já sido publicado em edição mimeografada, vendido e distribuido pelo autor em 1962. A Velha Casa é aqui publicado pela primeira vez.
PEÇA DE COLECÇÃO
A propósito do instrumento que dá o título ao conto, o autor descreve a sociedade humana, e vem assim na página 9:
" ... Ora o que é um teodolito? Vou ver; diz assim o meu dicionário: "instrumento astronómico e geodésico que serve para medir directamente as distâncias e as alturas zenitais". Retenhamos isto: que serve para medir as distâncias. E o mais importante vem agora: directamente. Quer dizer, rapidamente, quase imediatamente, num clin d'oeil. Gosto deste francesismo: por isso o emprego. O nosso trivial olhadela ou piscadela) exprime qualquer coisa de namorador, de intencional. sim, mas distraidamente, superficialmente, sem causalidade forte. Miradela ainda é pior, soa mal, deve ser (é?) nome de terra lá para o Norte. Olhadura e olhadeira parecem nomes de maleitas de animais, carrapatas de jericos a escorrerrem pus e sangue, salpicadas de varejeiras peganhentas. Mas estou-me a perder noutra história.
O que são as distâncias? São as realidades. Ou por onde estas se definem e singularizam. Como não pode estar tudo no mesmo sítio, o caos inicial, as pessoas e as coisas afastam-se, tendem a fugir para os seus lugares próprios, com as suas fórmulas de conduta rigorosamente necessárias e próprias. Algumas voltam para trás, enrodilham-se; outras vão alargando cada vez mais a sua órbita, fogem às origens, rodopiam num turbilhão, e nunca se pode prever onde irão acabar. Quero eu dizer: parar. Parar acabadas. Determinar, primeiro, onde se está (é o mais doloroso, porque a humana fraqueza é não estar sempre no mesmo sítio, é mudança, é ir resvalando). Depois, e só depois é possível fazê-lo, saber exactamente e depressa (nisto os segundos contam por êxitos ou fracassos) onde estão os outros. Avaliar a sua capacidade de ataque e defesa, preservando o seu alarme, medir a velocidade da sua rotação, conhecer as distâncias que nos separam. Chama-se, pode chamar-se a isto, estar (ou andar) orientado. O contrário é o compromisso e a confusão, que é o que ELES querem. O homem de qulidade, na convivência social, seria o homem circunspecto, isto é, e servindo-nos da etimologia, o que olha à sua volta para ver o que o rodeia, para avaliar-se e às coisas e pessoas que o rodeiam, para conhecer os fins e os meios, para medir distâncias, alfim! ..."